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Esta publicação foi desenvolvida com base no webinar ministrado por Sérgio Faria no dia 05 de agosto de 2021, disponível para visualização no canal de youtube da Zappts.

https://www.youtube.com/watch?v=uVT8Emhmhgw&ab_channel=Zappts

Sérgio Faria é cego desde os 2 anos de idade. Usou bengala por 29 anos, mas desde 2010 utiliza cão guia. Ele tem 56 anos, sendo que há 37 anos está no mundo da tecnologia da informação.

Por 16 anos ele trabalhou com comércio exterior, e já foi programador, analista e líder de projetos. Ainda era garoto quando começaram a surgir os primeiros computadores.

Desde pequeno queria ser engenheiro e tinha um colega que estudava na POLI, mas quando começou a mexer com computadores gostou muito e foi paixão à primeira vista.

Certo dia conheceu um cara cego que já mexia com informática desde 1969. Na época, escrevia-se todos os códigos em papel, em braile.

Foram 2 anos procurando oportunidade de trabalho, até que conseguiu um emprego na Sadia. Não havia acessibilidade alguma nessa época.

 “A gente programava em terminais gigantes e íamos por base dos “bips”. Digitava a aplicação que queria e ia contando os bips para saber se travou ou funcionou.”

Em 1988, mesmo sem internet, descobriu equipamentos da IBM nos EUA, e conseguiu que o diretor trouxesse um chamado OPTACOM, que era uma câmera e mostrava em seu dedo o que tinha no computador.

“Depois conseguimos dois terminais que falavam da IBM, mas foi aí que começou a descentralização das aplicações.”

“Fomos programar em microcomputador e daí fui atrás de equipamentos, aprender a usar o Windows."

"Não sabíamos o que era, e explicar o que era essas janelas para um cego, era muito difícil. Não tinha muitos cursos sobre o assunto e os cursos que tinham não era pra cegos.”

Sérgio já programava, mas queria ser analista de sistemas. Fez faculdade de Administração, e três pós-graduação, uma em análise de sistemas, outra em gerência de projetos,  e depois em comércio exterior.

Teclado para deficientes visuais

“Eu me perguntava: se eu escrevia programas, por que não era analista?

Sérgio aprendeu rápido, saiu da Sadia e foi parar na Accenture onde almejava a oportunidade de se tornar gerente de projeto. Hoje faz 23 anos que Sérgio está na Accenture e nos contou que é o único sobrevivente da época da internet discada.

“Fui líder em um projeto de empresa de telecom. Nessa época já tinham softwares que programavam no windows e vários emuladores.”

“Hoje o que eu vejo é que nós, enquanto desenvolvedores, temos comportamentos complicados."

"Existem bibliotecas acessíveis em Python, Java, e guides como WCAG e tantos outros, e a gente continua desenhando produtos sem lable em botões, que não abrem os menus, que não abrem com software de voz."

"Existe um semi-anafalbetismo em acessibilidade na área de T.I.”

Na área de T.I. normalmente não há esse cuidado real com a acessibilidade.

Mesmo com estatísticas da ONU mostrando que quando se contempla a acessibilidade, é possível atingir uma pessoa deficiente e mais quatro pessoas, ainda se tem o conceito de que um cego não tem conta em banco, ou não faz compras.

“Não tenho dificuldade com caracteres especiais e palavras diferentes, mas com imagens e gráficos, sim, pois o software de voz não consegue interpretar.”

Sérgio nos contou que as hastags #ParaCegoVer ajudam mas, quando fazem audiodescrição, as pessoas colocam o que está na cabeça delas. 

“Preciso que coloquem só o que as pessoas realmente veem. Ex: “luciano está bravo”. Bravo é um conceito meu, preciso que descrevam as expressões dele, como “Luciano está com a cara contraída”."

"Temos que falar o que vemos, e não deduções. Mas a autodescrição ajuda, é melhor ter alguma coisa do que nada."

Em sites com captcha, por exemplo, quando se aciona o som, 90% das vezes é uma voz que não consegue definir se o objeto é uma letra ou um número.

Tem coisas que são passíveis de utilização e tem coisas que são acessíveis. Se existe um botão “abrir” ou “imprimir”, isso é acessível. 

“Quando há uma coisa que não tem label, eu descubro que dou 3 tabs e ele fala só “botão” e quando eu dou enter ele funciona, isso é passível de utilização. É uma dedução, consigo usar porque aprendi de tanto errar.”

Como trazer mais acessibilidade na internet? 

“Precisaria ter um processo de conscientização, mas com outro enfoque. A sociedade ainda tem uma mentalidade de ‘tenho que fazer um site acessível para ajudar os cego’, quando o enfoque tem que ser outro, porque a deficiência é um estado."

"Nesse momento eu ESTOU como uma pessoa com deficiência, só que amanhã tudo isso pode mudar, por uma evolução tecnológica ou médica, eu posso voltar a ver."

"Então as pessoas tem que entender que quando se faz algo acessível, não é só para  5% dos brasileiros que têm deficiência, ela faz para todo mundo. A diferença é que alguns precisam disso agora, outros vão precisar no futuro.”

“O segundo ponto importante é: se não pode fazer tudo o que quer, faça tudo que pode."

"Eu, mesmo sendo ativista, não sei todas as necessidades das pessoas com necessidade. Existem ferramentas que testam acessibilidade, e você começar a desenvolver de maneira acessível."

"É muito mais barato do que converter depois. É muito mais fácil fazer, do que ter que refazer algo já desenhado.”

“Para nós cegos, tudo é informação, até o silêncio completo. Quando já conheço a pessoa, consigo saber sobre ela só pela alteração do comportamento. “Um polígrafo humano”."

"A gente não desenvolve os outros sentidos mais que o normal, isso é um mito. A gente só usa tudo que tem a disposição, os outros 4 sentidos que sobram."

"Reconheço as pessoas pelo cheiro, pela maneira de se mover, pela respiração. E a falta de informação também é uma informação.”

O que é blockchain?

Blockchain é um livro-razão compartilhado e imutável que facilita o processo de registro de transações e o rastreamento de ativos.

“Depois que tive um câncer na coxa, voltei a ativa e queria aprender, queria tocar projeto. Estava desalocado e me colocaram em uma equipe que me diziam “faz o que você quer fazer”, e tinha uma área que uma pessoa estava saindo, e era a área de blockchain.”

“Comecei a pensar nas pessoas com deficiência, comecei a pensar lá na frente, porque toda vez tenho que provar que sou cego. Daí pensei: “e se começam a fazer um cadastro de pessoa física com um negócio desse?”. Comecei a pensar em prontuário médico, e entrei de cabeça.”

"Tenho dificuldades por conta da falta de acessibilidade, então me tornei especialista no negócio."

"Não sou o cara que vai lá e faz o token, apesar de às vezes tentar. Sou o cara que tem as ideias e sabe do negócio, para passar para a garotada que faz 20x mais rápido que eu."

"Comecei a ler tudo que eu podia sobre o assunto, fazer curso, webinar, ver exemplos, e aos poucos fui entendendo.”

“Se hoje se fala: “é você quem cria as configurações?”. Não, mas sou o cara que fala: “quero que você faça de tal jeito."  Sou o cara que faz o desenho do negócio, junto com a arquitetura. Não ponho a mão na massa, mas sou eu quem digo "crie''. Sou ecumenico, mergulho em tudo sempre que necessário.”

O conceito de Blockchain

“Blockchain é o caderninho do vendedor. Imagina que você vende Natura em casa. Você comprou um kit que veio 10 desodorantes, gastou 1000 reais, e anotou no seu caderninho. Daí você vendeu um desodorante, você registra lá. Vendeu outro, anota lá.” 

“Por que é um caderninho? Porque não muda. Não adianta rasurar o caderno."

"A diferença é que para que ninguém rasure, roube ou que o caderno não se perca, ele é digital e está registrado no seu computador e no da pessoa que comprou. Chamamos isso de livro razão, porque isso nunca muda. É como um livro de contabilidade. “

“Mas e se eu comprei 10 desodorantes, e veio só 9?”. Em caso de erro, você faz uma justificativa do porque errou. Os fatos são registrados em linha do tempo e ele nunca muda. Até aí é uma DLT, porque é um livro e é distribuído no computador das pessoas.”

“E por que vira blockchain? Porque são blocos de transações e os registros desses blocos."

O “chain” é porque amarramos esses blocos um no outro. Cria-se um hash em cada bloco e ele fica criptografado um no outro. No final das contas, isso é seguro porque para mexer em um bloco, tenho que refazer a cadeia."

"E pra isso preciso de um poder computacional para descriptografar e para refazer a mesma.”

"E ele não é bitcoin? Não é. Bitcoin tem blockchain, mas não é blockchain."

"Foi o primeiro a usar blockchain para dar transparência e segurança, porque você pode rastrear e é confiável. É impossível refazer a cadeia e ele se tornou confiável.”

“O blockchain não é novo. Hash é antigo, banco de dados imutável e sequenciado é antigo. Eles só juntaram tudo em uma coisa só, que virou uma coisa nova. É uma maneira nova de juntar coisas velhas.”

“Blockchain é ótimo, mas lembre-se: é um esporte de equipe e você precisa perguntar para os outros se eles estão afim de jogar."

"Se todo mundo estiver, pense que é preciso alugar a quadra e todo mundo tem que ter vontade de pagar. Vai ficar mais barato? Vai."

"Se você faz o rastreio de uma cadeia produtiva, envia os documentos mais rápido e agiliza o processo, você mostra para o cliente que vale a pena. A quadra é a infra de blockchain. “

“Para usar blockchain, não precisa ter todos os pré-requisitos, mas precisa ter alguns. Tem que ter problema de confiabilidade, rastreabilidade e transparência. Se as pessoas têm isso e podem pagar pela quadra, então use blockchain.”

“No Brasil, as pessoas desanimam se tiver que “combinar o jogo com todo mundo".

“Quando trabalhava em comércio exterior e comecei a ter contato com o blockchain, eu falava: “isso precisa ter em comércio exterior''. Até que a IBM criou essa ferramenta.”

“Lembra que eu falava sobre prontuários médicos e blockchain? Hoje tem a RNDS, onde cada estado é um nó da cadeia."

"E, no futuro, cada brasileiro vai ter um prontuário nela. Com a pandemia, todos os testes e vacinas feitos e aplicados no Brasil, já estão registrados lá. E isso serve para facilitar o diagnóstico e histórico de cada paciente."

Para finalizar, Sérgio concluiu com uma frase que deve ser refletida com profundidade e que comprova seu bom caráter, humildade e disposição em ajudar. 

“Quero aprender e passar, e ajudar para que as pessoas possam fazer melhor do que eu fiz.”

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